Desiludido com a sombria política na F1, Kimi Räikkönen se voltou ao rali para reabastecer seu amor pela direção. Robin Scott-Elliot reporta.
Paris, não ainda na primavera, mas um lugar para novos começos mesmo assim. Kimi Räikkönen poderia ter estado em Valência semana passada, trocando olhares desafiadores com Michael Schumacher. Invés disso, o campeão mundial de Fórmula 1 está se preparando para seu ano sabático como um adorno necessário e brilhante para um Campeonato Mundial de Rali revisto e com sede pelos holofotes.
O finlandês, seus novos companheiros de equipe na Citroën e novos adversários se encontraram na capital francesa para lançar uma temporada que abrirá na neve da Suécia na quinta-feira. Primeiro, uma sessão de fotos apropriadamente gelada na Place de la Concorde; uma garoa miserável que torna a ponta dourada da agulha de Cleópatra ainda mais brilhante, a indiferença tão praticada dos parisienses, até mesmo dos poucos guardas no local, e um punhado de turistas japoneses tirando fotos ao acaso. Os pilotos sacodem suas jaquetas de inverno, posam nas cores de suas equipes segurando placas para promover a segurança nas estradas e tentam não tremer de frio. Não é a Fórmula 1.
De um lado da praça, olhando para a Torre Eiffel, fica o Automobile Club de France, o refinado quartel-general da FIA, o corpo governante do esporte a motor. Ele promete uma bem-vinda trégua do frio. As conversas iniciam acima no primeiro piso em um salão grande e cheio de livros que, ao inspecionar novamente, revela uma coleção estramente eclética; Proust e Dan Brown, Ken Follet e Umberto Eco, biografias de Pol Pot e Nelson, e uma história das Waffen SS.
Max Mosley limpou sua mesa há apenas três meses e em seu lugar como o chefão do automobilismo mundial está Jean Todt, um francês diminuto que já foi piloto de rali. Há motivos para torcer para o WRC, que tem vivido época de vacas magras ultimamente.
"O rali está fortemente implementado em meu coração," diz Todt. "Está entre minhas prioridades. Há muitas coisas a melhorar e é nosso compromisso assegurar que isso aconteça."
Este ano haverá um campeonato rejuvenescido de 13 rodadas, com novas rodadas em Istanbul, Auckland e França antes de seu agitado final no outono rasgando as estradas do País de Gales. E novos pilotos. O colorido Californiano Ken Block é um ex-praticante de snowboard e competidor do rali nos EUA, além de ser um empresário bem-sucedido que fez uma fortuna com tênis esportivos. E há Räikkönen, o frio e reservado finlandês, o 'Homem de Gelo', e o centro das atenções em Paris, ainda mais do que Sébastien Loeb, hexa-campeão mundial de rali. Os dois posam juntos e os fotógrafos se apressam em capturar o momento.
"É o maior desafio de minha carreira automobilística," diz Räikkönen mais tarde, com voz baixa, seu cabelo comprido enrolando abaixo do onipresente boné do patrocinador. "É algo que eu sempre quis tentar."
As opiniões entre os entendidos de automobilismo são de que será uma diversão de um ano para Räikkönen - um retorno para a Red Bull, seus patrocinadores no rali, tem sido discutida - apesar da nuvem sob a qual ele saiu da Ferrari. Mas quando ele guardou aqueles famosos macacões vermelhos, entre especulações sobre quais outros caminhos estariam abertos para ele ou não, foi o triste fim de um caso de amor que havia estabelecido sua reputação como piloto, assegurado a ele um campeonato mundial em 2007 e o tornado um homem rico. "Farei isso por um ano, depois vamos ver," ele diz sobre o rali, um esporte que ocupa um lugar especial nas afeições finlandesas.
No fim da temporada passada, Räikkönen deu voz a sua desilusão com a Fórmula 1 e a sua necessidade de encontrar um novo desafio para inspirá-lo. "Na F1, muitas coisas ofuscam a corrida," ele disse então. "Há muita politicagem. Na Fórmula 1 há muitas coisas desagradáveis acontecendo agora."
Räikkönen quer se apaixonar pelas corridas novamente, e o rali oferece um ambiente diversificado no qual ele pode redescobrir sua paixão. "Isto é diferente," diz o piloto de 30 anos, que como o novato nos circuitos vai pilotar para a equipe Citroën Junior.
"Há muitas outras coisas para lidar no rali. Na F1 você vai para os mesmos circuitos, volta a volta. O rali vai a lugares completamente diferentes - tantas coisas podem mudar, as superfícies, tudo, dia a dia. É muito diferente. É diferente quando você está correndo contra si mesmo - na F1 você corre contra os outros, aqui você corre contra o relógio. A velocidade não é tanta mas por outro lado é muito mais difícil."
Ele pilotou um rali no ano passado e na semana passada competiu no Rali Ártico, onde ele sobreviveu a um acidente para criar uma impressão positiva apesar de não terminar em uma boa posição, bastante atrás de outro piloto da Citroën, o espanhol Dani Sordo.
Seus objetivos para a temporada que chega, na qual ele vai competir em todos os ralis exceto o evento da Nova Zelândia, são limitados. "Tenho que tentar aprender as coisas, ver o que acontece," ele diz. "Seria ótimo [chegar ao pódio], mas temos que esperar e ver. Não sei exatamente o que esperar. Talvez mais tarde na temporada, quando tiver mais experiência, vou começar a ser mais rápido e poder desafiar mais. Ainda é cedo. Estou ainda sentindo as experiências."
O evento Ártico na Lapônia deu a ele uma ideia de onde está e onde precisa chegar. "Ainda não tive uma boa sensação com o carro. Há tantas áreas que eu preciso melhorar. Eu estava feliz no final só em me acostumar ao carro. [Na Suécia] o objetivo é não cometer erros demais e então ver onde estamos. Realmente, posso só dar o meu melhor - a 10ª colocação está bom."
É tudo muito distante dos pits cheios de dólares da Fórmula 1. As reportagens diziam que Räikkönen era o piloto mais bem pago dos circuitos na Ferrai, apesar de estar ainda recebendo a maior parte de seu salário neste ano além do apoio da Red Bull, então ele e sua esposa, antiga Miss Escandinávia, ainda não vão precisar ir à loja de £1.
Mas o mundo que ele vai habitar no próximo ano é notavelmente diferente - um carro de Fórmula 1 custa aproximadamente £4.5 milhões, enquanto um de World Rally custa aproximadamente £600.000 - e ele já encontrou um lado bom. "Os outros pilotos são muito legais, muito mais abertos do que na Fórmula 1 - muito prestativos," diz Räikkonen. "É mais caloroso aqui. É mais relaxante. Mais divertido? Depende do que você gosta de fazer."
Räikkönen, com todas suas ambições cuidadosamente modestas, gosta de vencer, e mesmo que ele seja simplesmente o coadjuvante do brilhantemente consistente Loeb ("A motivação ainda é forte," assegura o francês) e Sordo, um dos astros em ascensão no esporte, há ainda a expectativa de um campeão mundial.
"Primeiramente, precisamos permitir a ele tempo para que aprenda," diz Olivier Quenel, o chefe de equipe da Citroën. "Ele tem a mesma ideia. Mas após a primeira metade da temporada, não nos surpreenderia ver Kimi no pódio."
Räikkönen saiu da Fórmula 1 exatamente quando parece que as coisas estão ficando interessantes com a chegada de um certo alemão. Mas não há arrependimentos, pelo menos não em público, somente um dar de ombros digno da cidade onde ele está. "Para mim, não importa," ele diz. "Eu não sigo de perto - leio nos jornais como você."
Todos mudam: movimentações de carreira
*Rebecca Romero: Campeã mundial de remo em 2005, Romero foi para o ciclismo de pistas em 2006, e venceu uma medalha de ouro nas Olimpíadas em Pequim em 2008.
*Nelson Piquet Jnr: piloto brasileiro de Fórmula 1, foi para a Nascar nos EUA após ser demitido pela Renault após o escândalo de Cingapura.
*Clive Allen: atacante ex-Tottenham Spurs, ex-Crystal Palace e ex-Queenspark Rangers, brevemente se juntou à franquia da NFL no London Monarchs em 1997.
*Jason Robinson: um dos convertidos da liga para a união de rugby, foi o mais bem-sucedido. Venceu a única tentativa da Inglaterra em sua vitória da Copa do Mundo em 2003.
*Jonathan Davies: mudou para a liga de rugby em 1989, sob controvérsias, se juntando ao Widnes. Davies representou a Grã-Bretanha 10 vezes antes de voltar à liga da união em 1995.
Fonte: The Independent
Agradecimentos: Whatever @ OF, Anelise
Tradução: Fran (com auxílio de Dani Alonso)